Publicações de 2026 (Doutorado)

  • Tese - Bruna Muradás Esperon

    ESPOROTRICOSE FELINA E DETECÇÃO DE Sporothrix spp. EM PESCADOS: EVIDÊNCIAS INTEGRADAS EM SAÚDE ÚNICA E ESTRATÉGIAS DE EDUCAÇÃO

    Autor: Bruna Muradás Esperon (Currículo Lattes)

    Orientador: Profa. Dra. Melissa Orzechowski Xavier

    Resumo

    A esporotricose é uma micose subcutânea emergente no mundo e um grave problema de saúde pública no Brasil, considerada como uma doença negligenciada. A região costeira ao sul do Rio Grande do Sul, há mais de duas décadas reporta casos da enfermidade. Os gatos domésticos e a adaptação da espécie S. brasiliensis a este hospedeiro apresentam papel central na epidemiologia da esporotricose, associando-se ao atual preocupante cenário na saúde pública nacional. No entanto, casos de esporotricose humana relacionados a infeção por trauma com pescado são descritos. Diante da complexidade da cadeia epidemiológica da esporotricose e de sua interface com o ambiente, torna-se fundamental aprofundar o conhecimento epidemiológico da doença em gatos domésticos, bem como ampliar o olhar para além da transmissão clássica, incorporando a investigação de potenciais fontes não convencionais de infecção, e atuar com estratégias educativas que fortaleçam a vigilância, a prevenção e a formação em micologia. Objetivos: monitorar o desfecho e tratamento da esporotricose felina em região hiperendêmica; investigar pescados/peixes como possível fonte de infecção por Sporothrix spp.; e elaborar materiais didáticos voltados ao ensino de micologia. Essas temáticas originaram três artigos/manuscritos apresentados como produção científica. Manuscrito 1: Foi realizada a avaliação do manejo clínico, tratamento e desfechos da esporotricose felina, bem como do conhecimento dos tutores sobre a doença, em um município hiperendêmico do sul do Brasil. O estudo incluiu dados coletados a partir de questionário semi-estruturado aplicado a 62 tutores de gatos com esporotricose, demonstrando que a monoterapia com itraconazol foi o tratamento mais frequente, com duração média de 147 dias. A cura clínica ocorreu em 63% dos casos, enquanto 37% evoluíram a óbito, havendo associação significativa entre o uso de itraconazol manipulado e o óbito (p = 0,036). O tratamento representou importante impacto financeiro para os tutores, e lacunas no conhecimento sobre a doença foram evidenciadas. Os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas, incluindo a oferta de antifúngicos e ações educativas, para o controle da esporotricose felina e zoonótica. Manuscrito 2: Foi realizada a investigação da presença de Sporothrix spp. em peixes utilizando uma abordagem integrada, envolvendo análises metagenômicas, cultivo micológico, genotipagem e sequenciamento de genoma completo. O estudo incluiu 991 espécimes de três espécies de peixes, abrangendo diferentes estágios de vida, habitats e origens. Os peixes foram agrupados em três categorias e, ao todo, 46 pools de amostras foram submetidos às análises laboratoriais. A metagenômica revelou a detecção de OTUs/ASVs compatíveis com S. brasiliensis em 67,3% (31/46) dos pools analisados e com S. schenckii em 6,5% (3/46). O cultivo micológico permitiu o isolamento de quatro cepas de S. brasiliensis, cujos perfis genéticos se distribuíram em dois clados previamente descritos no Brasil, apresentando estreita relação com isolados clínicos de origem humana e animal. Os achados fornecem evidências inéditas da associação de Sporothrix spp. com peixes, ampliando o conhecimento sobre possíveis nichos ambientais e rotas de exposição desse patógeno em regiões endêmicas. Manuscrito 3: Foi realizada a elaboração de materiais didático-pedagógicos voltados ao ensino da micologia, diante da reconhecida superficialidade dessa temática nos diferentes níveis de formação no Brasil e da carência de recursos educativos específicos. Foram desenvolvidos cultivos fúngicos duradouros, protótipos de estruturas microscópicas em impressão 3D e um guia teórico, contemplando vinte gêneros e espécies fúngicas de importância médica e biotecnológica. Os materiais produzidos configuram uma alternativa lúdica, inovadora que permite a visualização adequada de características morfológicas essenciais à identificação fúngica e contribui para a qualificação do ensino, a disseminação do conhecimento micológico e o enfrentamento da negligência histórica das doenças fúngicas. Conclusões: A presente tese contribui de forma integrada e inovadora para melhor compreensão da cadeia epidemiológica da esporotricose e seu impacto na saúde pública. Os resultados evidenciam os desafios no manejo e tratamento da esporotricose felina em área hiperendêmica do sul do Brasil, destacando elevadas taxas de mortalidade, impacto financeiro significativo para os tutores e lacunas no conhecimento da população, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à oferta de antifúngicos e ao fortalecimento da vigilância em saúde. Adicionalmente, a evidência de material genômico de Sporothrix spp. em peixes e pescados amplia a compreensão da interface ambiente-patógeno, abrindo novas perspectivas sobre rotas não convencionais de exposição e o papel de ecossistemas aquáticos na dinâmica da esporotricose. Por fim, a elaboração de materiais didático-pedagógicos inovadores voltados ao ensino da micologia contribui para a formação de profissionais mais capacitados e conscientes, enfrentando a negligência histórica das doenças fúngicas. Em conjunto, os achados desta tese reforçam a importância de uma abordagem integrada entre saúde animal, saúde humana, ambiente e educação para o enfrentamento efetivo da esporotricose em áreas endêmicas.

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  • Tese - Rinelly Pazinato Dutra

    Associações entre a exposição a smartphones e tablets e o desenvolvimento motor na primeira infância

    Autor: Rinelly Pazinato Dutra (Currículo Lattes)

    Orientador: Prof. Dr. Michael Pereira da Silva

     

    Resumo

    Contexto: A exposição a smartphones e tablets na primeira infância tem aumentado de forma expressiva, levantando questionamentos acerca de seus possíveis impactos sobre o desenvolvimento motor infantil. Apesar do crescimento do uso desses dispositivos, as evidências científicas ainda são heterogêneas e pouco conclusivas, especialmente no contexto brasileiro. Objetivo: Investigar as associações entre a exposição a smartphones e tablets e o desenvolvimento motor (motricidade ampla e fina) na primeira infância, por meio de uma revisão sistemática da literatura e de um estudo transversal. Métodos: A revisão sistemática foi conduzida de acordo com a estratégia PECOS, com buscas realizadas em novembro de 2024 em sete bases de dados. Foram incluídos estudos observacionais que investigaram a associação entre a exposição a smartphones e tablets e o desenvolvimento motor em crianças de 0 a 6 anos. A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada por meio da ferramenta AXIS e os resultados foram sintetizados qualitativamente. O estudo transversal integrou o Projeto SmartKids e incluiu 519 crianças de 24 meses e seus cuidadores, entrevistados entre janeiro e dezembro de 2024. A exposição a smartphones e tablets foi avaliada por autorrelato dos cuidadores, considerando o tempo diário de exposição, e o desenvolvimento motor foi mensurado pelo Inventário Dimensional de Avaliação do Desenvolvimento Infantil - Breve (IDADI-Breve). Foram realizadas análises descritivas, bivariadas e regressão logística ordinal com ajustes progressivos, intervalos de confiança de 95% e significância estatística com valores-p <0,05. Resultados: A revisão sistemática incluiu sete estudos, com amostras variando de 25 a 715 participantes, totalizando 1.339 crianças. Os achados foram heterogêneos: um estudo identificou associação negativa com a motricidade ampla, dois com a motricidade fina e um com o desempenho motor global; por outro lado, três estudos apontaram associações positivas com a motricidade fina e um não encontrou associação significativa. Os achados da revisão indicaram que os efeitos podem variar conforme o tipo de habilidade avaliada, a idade da criança e as características da exposição. No estudo transversal, 54,7% das crianças estavam expostas a smartphones e tablets, com tempo médio diário de uso de 1,2 ± 1,6 horas. A classificação de alerta para atraso no desenvolvimento foi observada em 7,3% das crianças na motricidade ampla e em 20,1% na motricidade fina. Nas análises iniciais, maior tempo de exposição associou-se a piores desfechos na motricidade fina; contudo, após os ajustes, a associação perdeu significância estatística. Nos modelos finais, o tempo de exposição não se associou à motricidade ampla (OR = 0,85; IC95%: 0,68-1,07; p = 0,177) nem à motricidade fina (OR = 1,12; IC95%: 0,96-1,31; p = 0,136). Por outro lado, fatores relacionados ao contexto de vida da criança mostraram associações mais consistentes com o desenvolvimento motor, tanto na motricidade ampla quanto na motricidade fina, incluindo aspectos sociodemográficos maternos (idade materna mais avançada e que trabalham fora de casa), como também práticas de cuidado, que incluem alimentação saudável e interações de qualidade com adultos. Além disso, o uso problemático de smartphones pelos cuidadores e a presença de marcadores de desigualdades sociais, expressos pela cor/raça da pele (preta, parda, amarela ou indígena), estiveram associados a piores desfechos, especialmente na motricidade fina. Conclusão: Os resultados indicam que as associações entre a exposição a smartphones e tablets e o desenvolvimento motor na primeira infância são complexas e não podem ser explicadas apenas pelo tempo de exposição a esses dispositivos. Em um contexto em que os smartphones/tablets já fazem parte do cotidiano das famílias, estratégias baseadas em proibição total mostram-se pouco realistas. Nesse sentido, os achados sugerem que fatores como a alimentação saudável, a frequência de interações de qualidade com adultos como práticas de um cuidado responsivo e atencioso, exercem papel mais relevante para o desenvolvimento infantil. Assim, mais do que eliminar a exposição a esses dispositivos, torna-se fundamental promover experiências cotidianas que favoreçam o desenvolvimento da criança, contribuindo para uma abordagem mais equilibrada e contextualizada. Além disso, os resultados evidenciam a necessidade de avanços na produção científica, com a realização de estudos longitudinais que permitam compreender os efeitos ao longo do tempo, bem como investigações qualitativas e abordagens que considerem outras variáveis contextuais ainda pouco exploradas.

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  • Tese - Laura Fontoura Perim

    Perspectiva na assistência perinatal: insatisfação das puérperas e avaliação da qualidade na ótica dos profissionais de saúde

    Autor: Laura Fontoura Perim (Currículo Lattes)

    Orientador: Profa. Dra. Carla Vitola Gonçalves

     

    Resumo

    A qualidade da assistência perinatal constitui um dos eixos centrais das políticas públicas de saúde materno-infantil, sendo reconhecida como determinante para a redução da morbimortalidade materna e neonatal e para a promoção de uma experiência de parto segura, respeitosa e centrada na mulher. Nesse contexto, a satisfação e a insatisfação das puérperas emergem como indicadores sensíveis da qualidade do cuidado, refletindo não apenas os desfechos clínicos, mas também aspectos relacionais, organizacionais e estruturais da assistência. Paralelamente, a percepção dos profissionais de saúde sobre a qualidade do cuidado ofertado influencia diretamente a organização dos serviços, as práticas assistenciais e a implementação de políticas de humanização do parto e nascimento. Esta tese teve como objetivo conhecer a perspectiva sobre a assistência perinatal a partir do grau de insatisfação das puérperas e da avaliação da qualidade da assistência na ótica dos profissionais de saúde em um hospital universitário do sul do Brasil. Trata-se de um estudo transversal, de abordagem quantitativa e qualitativa, desenvolvido em um hospital universitário do extremo sul do Rio Grande do Sul. Participaram da pesquisa 242 puérperas assistidas no serviço e 58 profissionais de saúde atuantes na maternidade e no centro obstétrico, incluindo médicos obstetras, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Os dados quantitativos foram coletados por meio de questionário semiestruturado aplicado às puérperas e analisados por estatística descritiva e inferencial, com cálculo de razões de prevalência e intervalos de confiança de 95%. A análise qualitativa, realizada com os profissionais de saúde, utilizou a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo, permitindo a apreensão das percepções sobre a qualidade da assistência prestada. Os resultados do primeiro artigo evidenciaram que, embora a maioria das puérperas tenha avaliado positivamente a assistência recebida, um percentual significativo apresentou insatisfação relacionada principalmente à comunicação inadequada com a equipe de saúde, à insuficiência de informações sobre procedimentos e cuidados no pós-parto, à limitação do protagonismo da mulher no processo do parto e a fragilidades estruturais do serviço. Fatores como ausência de acompanhante, percepção negativa da ambiência e déficit de orientações no pós-parto mostraram associação estatisticamente significativa com a insatisfação das usuárias. No segundo artigo, a análise da perspectiva dos profissionais de saúde revelou que a qualidade da assistência perinatal é compreendida como um processo multidimensional, fortemente associado à humanização do cuidado, ao trabalho em equipe e à qualificação profissional. Entretanto, os discursos também evidenciaram desafios importantes, como sobrecarga de trabalho, insuficiência de recursos humanos, limitações estruturais e tensões entre o modelo tecnocrático e o modelo humanizado de atenção ao parto, os quais impactam negativamente a oferta de um cuidado individualizado e centrado na mulher. Conclui-se que a assistência perinatal, embora apresente avanços alinhados às políticas públicas e às diretrizes nacionais e internacionais, ainda enfrenta fragilidades que influenciam a satisfação das puérperas e a percepção dos profissionais de saúde. A integração das perspectivas das usuárias e das equipes assistenciais mostra-se fundamental para o aprimoramento da qualidade do cuidado, reforçando a necessidade de investimentos em comunicação, estrutura física, qualificação profissional e fortalecimento de práticas humanizadas e baseadas em evidências no contexto da atenção ao parto e nascimento.

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  • Tese - Rodrigo de Lima Brum

    Efeito do aumento de temperatura sobre poluentes atmosféricos e desfechos de saúde

    Autor: Rodrigo de Lima Brum (Currículo Lattes)

    Orientador: Prof. Dr. Flavio Manoel Rodrigues da Silva Junior

     

    Resumo

    A poluição atmosférica constitui o principal risco ambiental à saúde global, sendo responsável por cerca de sete milhões de mortes prematuras anuais, conforme estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). No cenário brasileiro, a compreensão desse fenômeno é limitada pela escassez de monitoramento físico em cidades de pequeno e médio porte, o que gera lacunas críticas na avaliação de impacto à saúde (AIS) em nível regional. Esta tese investiga a interação complexa entre os parâmetros meteorológicos e a dinâmica de poluentes atmosféricos, com foco no papel do aumento da temperatura média como catalisador de desfechos respiratórios e cardiovasculares. O trabalho está estruturado em três manuscritos que abordam impactos sociais da poluição do ar; o monitoramento e previsão de poluentes em pequenas cidades do sul do Brasil; e a proposição de modelos preditivos avançados utilizando dados das capitais estatuais do Brasil. A inovação metodológica reside no uso de algoritmos de Machine Learning, especificamente o Support Vector Machine (SVM) e Random Forest (RF), para o desenvolvimento de cenários de "atmosfera futura". Diferente das abordagens lineares tradicionais, a metodologia empregada utilizou o cruzamento binário de temperatura e variáveis meteorológicas para simular a dispersão de poluentes sob as trajetórias de forçante radiativa (RCPs) e caminhos socioeconômicos compartilhados (SSPs) projetados pelo IPCC. Os resultados demonstram que o aumento da temperatura potencializa a concentração de poluentes locais, exacerbando a vulnerabilidade de grupos sensíveis, como crianças e idosos, além de evidenciar o papel da posição socioeconômica como determinante estrutural na exposição. Conclui-se que o uso de inteligência artificial aplicada ao clima é uma ferramenta estratégica para subsidiar políticas públicas de mitigação e adaptação, permitindo que gestores em regiões com monitoramento precário possam antecipar riscos e implementar ações preventivas de saúde pública alinhadas à Agenda 2030 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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  • Tese - Victória Pires Panassolo

    Avaliação da associação de compostos sintéticos ao albendazol contra Toxocara canis: estudos in vitro, in silico e in vivo

    Autor: Victória Pires Panassolo (Currículo Lattes)

    Orientador: Profa. Dra. Luciana Farias da Costa de Avila

     

    Resumo

    A toxocaríase é uma zoonose parasitária de distribuição mundial causada pelas larvas de Toxocara canis, considerada um importante problema de saúde pública. No ser humano, a infecção ocorre pela ingestão de ovos embrionados presentes no ambiente ou pelo consumo de carne ou vísceras cruas ou malcozidas de hospedeiros paratênicos contendo larvas, resultando em migração larval e manifestações clínicas que variam de assintomáticas a graves, incluindo acometimento hepático, ocular e neurológico. O tratamento baseia-se no uso de benzimidazóis, especialmente o albendazol; entretanto, sua eficácia variável em helmintíases teciduais evidencia a necessidade de novas abordagens terapêuticas. Este estudo avaliou a atividade antiparasitária de compostos sintéticos derivados de hidroxietilamina e de anilina, isoladamente e em associação ao albendazol, contra larvas de Toxocara canis. Foram realizados ensaios in vitro para determinação da atividade larvicida, análises de citotoxicidade e estudos in silico de propriedades farmacocinéticas e toxicológicas, além de um modelo experimental in vivo em camundongos infectados com T. canis para avaliar o efeito de derivados de anilina na carga parasitária tecidual. Os resultados demonstraram atividade larvicida dos compostos contra T. canis, com baixa citotoxicidade e propriedades farmacocinéticas compatíveis com biodisponibilidade oral. A associação com albendazol evidenciou efeitos aditivos e sinérgicos (FICI entre 0,75-0,625 e 0,35-0,325). Em modelo murino, a terapia combinada reduziu a carga larval em 66,9%, superior ao albendazol (52,1%) e ao composto isolado (POHA) (47,2%). Em conjunto, os achados indicam que os compostos sintéticos derivados de hidroxietilamina e anilina representam plataformas promissoras para o desenvolvimento de novos candidatos antiparasitários, reforçando o potencial da associação com albendazol no controle da toxocaríase.

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  • Tese - Mauren de Castro Ritta

    Insegurança alimentar e nutricional e uso de serviços de saúde em um município do sul do Brasil: estudo longitudinal SulCovid-19

    Autor: Mauren de Castro Ritta (Currículo Lattes)

    Orientador: Profa. Dra. Mirelle de Oliveira Saes

     

    Resumo

    A pandemia da covid-19, causada pelo SARS-CoV-2 e identificada inicialmente em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, China, configurou-se como um dos maiores desafios de saúde pública em escala global. Além dos impactos diretos na morbimortalidade, as medidas de enfrentamento, como o isolamento social, repercutiram significativamente nas dimensões econômicas, sociais e psicológicas da população. Nesse contexto, relatórios da Organização das Nações Unidas apontaram um agravamento da insegurança alimentar e nutricional (IAN) no Brasil, concomitante a mudanças nos padrões de uso dos serviços de saúde. Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo analisar a ocorrência de IAN durante e após a pandemia da covid-19, bem como sua relação com o uso de serviços de saúde em adultos e idosos residentes em um município do Sul do Brasil. Trata-se de um estudo longitudinal, de base populacional, vinculado à pesquisa "SulCovid-19", que acompanhou indivíduos infectados pelo SARS-CoV-2 entre dezembro de 2020 e março de 2021. A coleta de dados ocorreu em dois momentos: durante a pandemia (junho a outubro de 2021), com a participação de 2.919 indivíduos, e no período pós-pandêmico (outubro de 2022 a maio de 2023), com 1.927 participantes. O questionário incluiu informações sociodemográficas, condições de saúde, situação alimentar e uso de serviços de saúde. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FURG (Parecer nº 4.375.697). Os resultados indicaram que 51,6% dos participantes permaneceram em situação de segurança alimentar e nutricional (SAN) ao longo do período analisado, enquanto 20,9% apresentaram IAN persistente. A incidência de IAN foi observada em 13,4% dos indivíduos, ao passo que 14,1% superaram essa condição. A persistência da IAN esteve associada a fatores sociodemográficos, como sexo feminino, cor da pele preta, ausência de companheiro(a), menor escolaridade e ausência de vínculo empregatício. Adicionalmente, fatores de saúde, como tabagismo, presença de fadiga crônica e autopercepção negativa do estado de saúde, também se mostraram relevantes. Em relação ao uso de serviços de saúde, observou-se maior utilização das unidades básicas de saúde (58,7%), seguidas por serviços de pronto atendimento e pronto-socorro particular. Indivíduos com IAN, especialmente aqueles com início ou persistência da condição, apresentaram maior probabilidade de utilizar serviços públicos, com destaque para o pronto-socorro. A análise da fração atribuível sugeriu que a eliminação da IAN poderia reduzir em até 21% a demanda por pronto-socorro público, além de diminuir a utilização de unidades de pronto atendimento (10%) e unidades básicas de saúde (7%). Os achados evidenciam a importância do monitoramento longitudinal da IAN e reforçam a necessidade de políticas públicas intersetoriais que integrem ações de SAN, proteção social e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. Tais medidas são fundamentais para a promoção da equidade, garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada e redução das desigualdades sociais, especialmente no contexto pós-pandêmico.

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