Perspectiva na assistência perinatal: insatisfação das puérperas e avaliação da qualidade na ótica dos profissionais de saúde
Autor: Laura Fontoura Perim (Currículo Lattes)
Orientador: Profa. Dra. Carla Vitola Gonçalves
Resumo
A qualidade da assistência perinatal constitui um dos eixos centrais das políticas públicas de saúde materno-infantil, sendo reconhecida como determinante para a redução da morbimortalidade materna e neonatal e para a promoção de uma experiência de parto segura, respeitosa e centrada na mulher. Nesse contexto, a satisfação e a insatisfação das puérperas emergem como indicadores sensíveis da qualidade do cuidado, refletindo não apenas os desfechos clínicos, mas também aspectos relacionais, organizacionais e estruturais da assistência. Paralelamente, a percepção dos profissionais de saúde sobre a qualidade do cuidado ofertado influencia diretamente a organização dos serviços, as práticas assistenciais e a implementação de políticas de humanização do parto e nascimento. Esta tese teve como objetivo conhecer a perspectiva sobre a assistência perinatal a partir do grau de insatisfação das puérperas e da avaliação da qualidade da assistência na ótica dos profissionais de saúde em um hospital universitário do sul do Brasil. Trata-se de um estudo transversal, de abordagem quantitativa e qualitativa, desenvolvido em um hospital universitário do extremo sul do Rio Grande do Sul. Participaram da pesquisa 242 puérperas assistidas no serviço e 58 profissionais de saúde atuantes na maternidade e no centro obstétrico, incluindo médicos obstetras, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Os dados quantitativos foram coletados por meio de questionário semiestruturado aplicado às puérperas e analisados por estatística descritiva e inferencial, com cálculo de razões de prevalência e intervalos de confiança de 95%. A análise qualitativa, realizada com os profissionais de saúde, utilizou a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo, permitindo a apreensão das percepções sobre a qualidade da assistência prestada. Os resultados do primeiro artigo evidenciaram que, embora a maioria das puérperas tenha avaliado positivamente a assistência recebida, um percentual significativo apresentou insatisfação relacionada principalmente à comunicação inadequada com a equipe de saúde, à insuficiência de informações sobre procedimentos e cuidados no pós-parto, à limitação do protagonismo da mulher no processo do parto e a fragilidades estruturais do serviço. Fatores como ausência de acompanhante, percepção negativa da ambiência e déficit de orientações no pós-parto mostraram associação estatisticamente significativa com a insatisfação das usuárias. No segundo artigo, a análise da perspectiva dos profissionais de saúde revelou que a qualidade da assistência perinatal é compreendida como um processo multidimensional, fortemente associado à humanização do cuidado, ao trabalho em equipe e à qualificação profissional. Entretanto, os discursos também evidenciaram desafios importantes, como sobrecarga de trabalho, insuficiência de recursos humanos, limitações estruturais e tensões entre o modelo tecnocrático e o modelo humanizado de atenção ao parto, os quais impactam negativamente a oferta de um cuidado individualizado e centrado na mulher. Conclui-se que a assistência perinatal, embora apresente avanços alinhados às políticas públicas e às diretrizes nacionais e internacionais, ainda enfrenta fragilidades que influenciam a satisfação das puérperas e a percepção dos profissionais de saúde. A integração das perspectivas das usuárias e das equipes assistenciais mostra-se fundamental para o aprimoramento da qualidade do cuidado, reforçando a necessidade de investimentos em comunicação, estrutura física, qualificação profissional e fortalecimento de práticas humanizadas e baseadas em evidências no contexto da atenção ao parto e nascimento.