Insegurança alimentar e nutricional e uso de serviços de saúde em um município do sul do Brasil: estudo longitudinal SulCovid-19
Autor: Mauren de Castro Ritta (Currículo Lattes)
Orientador: Profa. Dra. Mirelle de Oliveira Saes
Resumo
A pandemia da covid-19, causada pelo SARS-CoV-2 e identificada inicialmente em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, China, configurou-se como um dos maiores desafios de saúde pública em escala global. Além dos impactos diretos na morbimortalidade, as medidas de enfrentamento, como o isolamento social, repercutiram significativamente nas dimensões econômicas, sociais e psicológicas da população. Nesse contexto, relatórios da Organização das Nações Unidas apontaram um agravamento da insegurança alimentar e nutricional (IAN) no Brasil, concomitante a mudanças nos padrões de uso dos serviços de saúde. Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo analisar a ocorrência de IAN durante e após a pandemia da covid-19, bem como sua relação com o uso de serviços de saúde em adultos e idosos residentes em um município do Sul do Brasil. Trata-se de um estudo longitudinal, de base populacional, vinculado à pesquisa "SulCovid-19", que acompanhou indivíduos infectados pelo SARS-CoV-2 entre dezembro de 2020 e março de 2021. A coleta de dados ocorreu em dois momentos: durante a pandemia (junho a outubro de 2021), com a participação de 2.919 indivíduos, e no período pós-pandêmico (outubro de 2022 a maio de 2023), com 1.927 participantes. O questionário incluiu informações sociodemográficas, condições de saúde, situação alimentar e uso de serviços de saúde. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FURG (Parecer nº 4.375.697). Os resultados indicaram que 51,6% dos participantes permaneceram em situação de segurança alimentar e nutricional (SAN) ao longo do período analisado, enquanto 20,9% apresentaram IAN persistente. A incidência de IAN foi observada em 13,4% dos indivíduos, ao passo que 14,1% superaram essa condição. A persistência da IAN esteve associada a fatores sociodemográficos, como sexo feminino, cor da pele preta, ausência de companheiro(a), menor escolaridade e ausência de vínculo empregatício. Adicionalmente, fatores de saúde, como tabagismo, presença de fadiga crônica e autopercepção negativa do estado de saúde, também se mostraram relevantes. Em relação ao uso de serviços de saúde, observou-se maior utilização das unidades básicas de saúde (58,7%), seguidas por serviços de pronto atendimento e pronto-socorro particular. Indivíduos com IAN, especialmente aqueles com início ou persistência da condição, apresentaram maior probabilidade de utilizar serviços públicos, com destaque para o pronto-socorro. A análise da fração atribuível sugeriu que a eliminação da IAN poderia reduzir em até 21% a demanda por pronto-socorro público, além de diminuir a utilização de unidades de pronto atendimento (10%) e unidades básicas de saúde (7%). Os achados evidenciam a importância do monitoramento longitudinal da IAN e reforçam a necessidade de políticas públicas intersetoriais que integrem ações de SAN, proteção social e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. Tais medidas são fundamentais para a promoção da equidade, garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada e redução das desigualdades sociais, especialmente no contexto pós-pandêmico.