Tese - Rinelly Pazinato Dutra

Associações entre a exposição a smartphones e tablets e o desenvolvimento motor na primeira infância

Autor: Rinelly Pazinato Dutra (Currículo Lattes)

Orientador: Prof. Dr. Michael Pereira da Silva

 

Resumo

Contexto: A exposição a smartphones e tablets na primeira infância tem aumentado de forma expressiva, levantando questionamentos acerca de seus possíveis impactos sobre o desenvolvimento motor infantil. Apesar do crescimento do uso desses dispositivos, as evidências científicas ainda são heterogêneas e pouco conclusivas, especialmente no contexto brasileiro. Objetivo: Investigar as associações entre a exposição a smartphones e tablets e o desenvolvimento motor (motricidade ampla e fina) na primeira infância, por meio de uma revisão sistemática da literatura e de um estudo transversal. Métodos: A revisão sistemática foi conduzida de acordo com a estratégia PECOS, com buscas realizadas em novembro de 2024 em sete bases de dados. Foram incluídos estudos observacionais que investigaram a associação entre a exposição a smartphones e tablets e o desenvolvimento motor em crianças de 0 a 6 anos. A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada por meio da ferramenta AXIS e os resultados foram sintetizados qualitativamente. O estudo transversal integrou o Projeto SmartKids e incluiu 519 crianças de 24 meses e seus cuidadores, entrevistados entre janeiro e dezembro de 2024. A exposição a smartphones e tablets foi avaliada por autorrelato dos cuidadores, considerando o tempo diário de exposição, e o desenvolvimento motor foi mensurado pelo Inventário Dimensional de Avaliação do Desenvolvimento Infantil - Breve (IDADI-Breve). Foram realizadas análises descritivas, bivariadas e regressão logística ordinal com ajustes progressivos, intervalos de confiança de 95% e significância estatística com valores-p <0,05. Resultados: A revisão sistemática incluiu sete estudos, com amostras variando de 25 a 715 participantes, totalizando 1.339 crianças. Os achados foram heterogêneos: um estudo identificou associação negativa com a motricidade ampla, dois com a motricidade fina e um com o desempenho motor global; por outro lado, três estudos apontaram associações positivas com a motricidade fina e um não encontrou associação significativa. Os achados da revisão indicaram que os efeitos podem variar conforme o tipo de habilidade avaliada, a idade da criança e as características da exposição. No estudo transversal, 54,7% das crianças estavam expostas a smartphones e tablets, com tempo médio diário de uso de 1,2 ± 1,6 horas. A classificação de alerta para atraso no desenvolvimento foi observada em 7,3% das crianças na motricidade ampla e em 20,1% na motricidade fina. Nas análises iniciais, maior tempo de exposição associou-se a piores desfechos na motricidade fina; contudo, após os ajustes, a associação perdeu significância estatística. Nos modelos finais, o tempo de exposição não se associou à motricidade ampla (OR = 0,85; IC95%: 0,68-1,07; p = 0,177) nem à motricidade fina (OR = 1,12; IC95%: 0,96-1,31; p = 0,136). Por outro lado, fatores relacionados ao contexto de vida da criança mostraram associações mais consistentes com o desenvolvimento motor, tanto na motricidade ampla quanto na motricidade fina, incluindo aspectos sociodemográficos maternos (idade materna mais avançada e que trabalham fora de casa), como também práticas de cuidado, que incluem alimentação saudável e interações de qualidade com adultos. Além disso, o uso problemático de smartphones pelos cuidadores e a presença de marcadores de desigualdades sociais, expressos pela cor/raça da pele (preta, parda, amarela ou indígena), estiveram associados a piores desfechos, especialmente na motricidade fina. Conclusão: Os resultados indicam que as associações entre a exposição a smartphones e tablets e o desenvolvimento motor na primeira infância são complexas e não podem ser explicadas apenas pelo tempo de exposição a esses dispositivos. Em um contexto em que os smartphones/tablets já fazem parte do cotidiano das famílias, estratégias baseadas em proibição total mostram-se pouco realistas. Nesse sentido, os achados sugerem que fatores como a alimentação saudável, a frequência de interações de qualidade com adultos como práticas de um cuidado responsivo e atencioso, exercem papel mais relevante para o desenvolvimento infantil. Assim, mais do que eliminar a exposição a esses dispositivos, torna-se fundamental promover experiências cotidianas que favoreçam o desenvolvimento da criança, contribuindo para uma abordagem mais equilibrada e contextualizada. Além disso, os resultados evidenciam a necessidade de avanços na produção científica, com a realização de estudos longitudinais que permitam compreender os efeitos ao longo do tempo, bem como investigações qualitativas e abordagens que considerem outras variáveis contextuais ainda pouco exploradas.

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