VARIAÇÃO TEMPORAL DO USO DE ANTIMICROBIANOS E DO PADRÃO DE RESISTÊNCIA BACTERIANA EM UMA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA
Autor: Álvaro Birck Prates (Currículo Lattes)
Resumo
O rápido surgimento e disseminação de bactérias multidrogarresistente em unidades de terapia intensiva (UTI) podem ser considerados uma crise global. As principais causas deste problema são multifatoriais, entretanto, pode-se destacar que a emergência da resistência bacteriana está intimamente correlacionada com a pressão seletiva resultante do elevado uso de antibióticos. Uma das soluções propostas são os programas de antibiotic stewardship que incluem a identificação rápida dos microrganismos infectantes, a otimização da antibioticoterapia baseada nas propriedades farmacocinéticas e farmacodinâmicas e o aprimoramento do tratamento empírico com tempo regulado de administração e realização de descalonamento conforme o apontamento de evidências clínicas e laboratoriais. Para a implementação destes programas, é essencial o conhecimento do perfil dos pacientes internados, das estratégias de uso de antibióticos e do perfil de resistência bacteriano. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi caracterizar as variações temporais no consumo de antimicrobianos e no perfil de resistência bacteriana em infecções adquiridas por pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Jr da Universidade Federal do Rio Grande (HU). Foi realizado um estudo transversal, retrospectivo o qual foram determinadas mensalmente as taxas de dose diária definida (DDD) de todos antimicrobianos prescritos e resistência bacteriana na UTI. Para a obtenção destes dados foram avaliados todos prontuários, prescrições, evoluções diárias das internações e laudos microbiológicos de 211 pacientes que representaram o total de internados na UTI geral do HU no período de janeiro de 2017 até dezembro 2018. Deste total, 15% dos pacientes foram internados em função de complicações relacionadas a AIDS, sendo que 67,8% destes tinham resultados de carga viral superiores a 100.000 cópias/mL e 92,6% apresentava contagem de células CD4 abaixo de 200 células/mm3. Em relação ao uso de antimicrobianos, quantificou-se uma densidade de consumo média de 151,3 DDD/100 pacientes-dia, sendo que a média de consumo em 2017 (195,2 DDD/100 pacientes-33 dia) foi maior do que em 2018 (107,4 DDD/100 pacientes-dia). Dentre prescrições observou-se um maior uso dos carbapenêmicos (27,1%), seguido pelos glicopeptídeos (14,5%), aminoglicosídeos (12,5%) e sulfonamidas (12%). Os microrganismos mais comumente isolados foram a Klebsiella pneumoniae (23,9%) e Acinetobacter baumannii (11,9%) com perfis de resistência aos carbapenêmicos de 39,1% e 97,4%, respectivamente. Observou-se que, após a liberação do resultado microbiológico, 62% dos antimicrobianos prescritos estavam em desacordo com o perfil de resistência reportado. A partir da observação gráfica dos dados temporais, observou-se uma convergência entre o consumo de carbapenêmicos, aminoglicosídeos e sulfonamidas e taxa de resistência de isolados de Klebsiella pneumoniae para estes mesmos antimicrobianos. A avaliação temporal permitiu identificar eventos e condutas que influenciaram no uso de antimicrobianos. O elevado consumo de carbapenêmicos agregado a maior taxa de infecções por Acinetobacter baumannii e Klebsiella pneumoniae com expressiva resistência aos carbapenêmicos em conjunto com a avaliação da concordância entre exame laboratorial e antibioticoterapia demonstraram que o diagnóstico microbiológico tem baixo impacto na conduta terapêutica. Estes achados alertam para a necessidade da adoção de estratégias para o uso racional de antimicrobianos podendo impactar no desfecho clínico e financeiro.
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