Mecanismos Moleculares de Resistência a Fluoroquinolonas em Escherichia coli Isoladas de Infecções do Trato Urinário
Autor: Lisiane Martins Volcão (Currículo Lattes)
Resumo
As infecções do trato urinário (ITU’s) estão entre os casos mais comuns de consultas médicas, e configuram-se com uma das principais infecções nosocomiais. Escherichia coli costuma ser o microrganismo mais frequentemente isolado neste tipo de infecção, tanto em infecções adquiridas na comunidade como aquelas adquiridas no ambiente hospitalar. Esse agente é uma das principais enterobactérias presentes na microbiota humana, e seus fatores de virulência, como adesinas e flagelos, favorecem sua locomoção e adesão ao epitélio do trato urinário do hospedeiro. Para o tratamento de ITU’s, a principal classe de antibióticos (ATB) administradas são as fluoroquinolonas (FQ’s), geralmente de forma empírica, como ciprofloxacina (CIP) e norfloxacina (NOR). Entretanto, o aumento do seu consumo e consequentemente da frequência de resistência bacteriana tem se tornado um fato extremamente alarmante a nível mundial, pois no momento em que há decréscimo da suscetibilidade de agentes causadores de infecções, ocorre simultaneamente uma diminuição nas opções terapêuticas para o tratamento destas. Embora o principal mecanismo de resistência a FQ’s sejam as mutações na região determinante de resistência a quinilonas (QRDR) dos genes gyrA e parC, os quais codificam para as enzimas DNA girase e Topoisomerase que são os alvos das FQ’s, estão sendo também descritos genes presentes em plasmídeos os quais aumentam em baixo nível a resistência bacteriana a esta classe de ATB. Com isso, o presente estudo teve como objetivo caracterizar a base molecular de resistência a FQ’s, com ênfase a presença de genes mediados por plasmídeos em E. coli isoladas de ITU’s, provenientes de pacientes atendidos no Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Jr., no município de Rio Grande, Rio Grande do Sul. No período de agosto de 2012 a julho de 2013, foram isolados um total de 236 E. coli causadoras de ITU’s. Estas cepas foram estocadas na bacterioteca do Núcleo de Pesquisa em Microbiologia Médica – FURG, sendo para o estudo, selecionadas todos os isolados de E. coli classificadas como produtoras de β-lactamases de espectro estendido (ESBL) e um mesmo número destes sem serem produtoras de ESBL, escolhidos de forma randomizada, sendo 50% sensíveis a CIP e NOR e 50% resistentes a estes ATB. A identificação bacteriana, bem como a definição de cepa produtora de ESBL foi realizada pelo Sistema Automatizado Phoenix® pertencente ao Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio Grande. Para cada isolado foram determinadas concentrações inibitórias mínimas (CIM), frente a CIP e NOR conforme o CLSI (2012). Foi realizada através da técnica de PCR multiplex a detecção dos genes de resistência, qnrA, qnrB e qnrS. Nestes mesmos isolados foi realizada a investigação do gene aac(6’)-Ib e de sua variante aac(6’)-Ib-cr, através da técnica de PCR e posterior digestão enzimática com a enzima BtsCI, respectivamente. Logo, em todos os isolados que apresentaram pelo menos um destes genes, foi feita a amplificação da região QRDR’s e posterior sequenciamento para identificação de mutações em gyrA e parC. No total foram estudados 35 isolados de E. coli contendo ESBL, destes 83% resistentes a CIP e NOR. Das cepas com ausência de ESBL (n=36), menos de 40% dos isolados a CIM foi ≥ 128µg/mL a CIP e NOR. Houve detecção de qnrS em 4 isolados, qnrB em 2 isolados, não havendo isolados contendo qnrA. Dos 71 isolados analisados, em 31 pode ser visualizado a presença de aac(6’)-Ib, sendo destes, 93,5% caracterizados como aac(6’)-Ib-cr. Dos isolados submetidos ao sequenciamento (n=31), 38,7% apresentaram múltiplas mutações no gene gyrA e parC, e em 8 não foram detectadas nenhuma mutação na região pesquisada. Ao analisar os níveis de CIM, a presença de ESBL e genes de resistência, e a frequência de mutações cromossômicas, pode-se observar a forte associação entre mutações em gyrA e parC com a resistência a FQ’s. Neste estudo não foi demonstrada correlação entre níveis de resistência a CIP e NOR com a presença de ESBL, genes qnr e a variante aac(6’)-Ib-cr.
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