Esporotricose no sul do Brasil: diversidade genética e clínica, susceptibilidade antifúngica, diagnóstico e bioprospecção
Autor: Mariana Rodrigues Trapaga (Currículo Lattes)
Orientador: Profa. Dra. Melissa Orzechowski Xavier
Resumo
Nas últimas décadas, a esporotricose zoonótica consolidou-se como uma das principais micoses emergentes no Brasil, com crescente expansão para outros países da América Latina. Essa endemia, causada predominantemente por Sporothrix brasiliensis, foi inicialmente descrita em surtos epidêmicos no final da década de 1990, de forma independente nos estados do Rio de Janeiro (RJ) e do Rio Grande do Sul (RS). Os gatos domésticos, em razão da elevada carga fúngica, gravidade clínica e hábitos de vida, são os principais transmissores. Com o aumento expressivo de casos, também se observa a ocorrência de formas clínicas atípicas, como as reações de hipersensibilidade, ainda pouco compreendidas. Nesse contexto, o conhecimento epidemiológico, a disponibilidade de métodos diagnósticos acessíveis e o uso racional de antifúngicos constituem pilares fundamentais para o enfrentamento dessa micose, cuja rápida expansão geográfica resultou, recentemente, em sua inclusão na lista de doenças de notificação compulsória em nível nacional. O diagnóstico da doença ainda possui limitações associadas à técnica de cultivo micológico, que demanda tempo e profissionais especializados. Além disso, há a problemática associada ao tratamento, cujo fármaco de escolha, o itraconazol, vem demonstrando limitações quanto à resposta terapêutica, ressaltando a importância da vigilância, bem como da busca por novas alternativas. Fundamentada nessa problemática, a presente tese teve como objetivos: avaliar a diversidade genotípica dos isolados circulantes no RS; determinar o perfil de suscetibilidade antifúngica; descrever o primeiro relato de esporotricose causada por S. brunneoviolacea; caracterizar manifestações clínicas de hipersensibilidade em uma área hiperendêmica; validar novos métodos diagnósticos; e explorar a atividade antifúngica de compostos naturais marinhos frente a S. brasiliensis. Para contemplar esses objetivos voltados à epidemiologia, vigilância, clínica, diagnóstico e novas alternativas terapêuticas, foram desenvolvidos diferentes experimentos organizados em cinco artigos/manuscritos. Manuscrito 1: Foi realizada a análise de 450 isolados de S. brasiliensis provenientes de distintas regiões do Rio Grande do Sul, revelando ampla diversidade genética com a identificação de 82 genótipos, distribuídos em três grandes clados. Dois clados inéditos foram evidenciados, sendo um deles o clado majoritariamente associado a região Sul do RS, com maior expansão clonal, e outro associado a região da Serra e Sul, com maior variabilidade genética. Alguns isolados, associados principalmente a região metropolitana, foram agrupados ao clado do RJ previamente descrito. Observou-se ainda uma distribuição bimodal de isolados não selvagens para o itraconazol, indicando uma emergência da resistência na região. Os clados apresentaram diferentes taxas de isolados não-selvagens, variando de cerca de 20% a até 89%. Tais achados evidenciam a circulação de distintas linhagens no estado do RS e com perfis distintos de suscetibilidade, reforçando a importância da vigilância epidemiológica e do monitoramento antifúngico, e o papel da região mais ao sul do Brasil na dinâmica de expansão da doença no cenário nacional. Manuscrito 2: Foi relatado o primeiro caso de esporotricose por S. brunneoviolacea em um gato doméstico do sul do Brasil. A espécie, previamente considerada ambiental e não patogênica, foi identificada por sequenciamento do gene da calmodulina e análise filogenética, que confirmou seu distanciamento do clado clínico de Sporothrix. O caso apresentou evolução clínica rápida e com resposta favorável ao itraconazol. Trata-se da primeira descrição dessa espécie no Brasil e do primeiro registro mundial de infecção felina por S. brunneoviolacea, contribuindo para ampliar o entendimento sobre a diversidade etiológica e o potencial zoonótico do gênero Sporothrix. Manuscrito 3: Foi realizada a primeira descrição detalhada de casos de hipersensibilidade associados à esporotricose no RS, identificando uma frequência de 17,1% entre os pacientes assistidos na rede de referência regional para esporotricose humana do sul do Estado. A manifestação mais comum foi artrite asséptica, frequentemente associada às formas linfocutânea e cutânea fixa. A genotipagem dos isolados provenientes desses pacientes não mostrou distinção em relação aos casos clássicos, indicando que a resposta imunológica do hospedeiro, e não a variabilidade genética do fungo, está na base dessas manifestações imunoalérgicas. Manuscrito 4: Foi avaliada e demonstrada a aplicabilidade de uma PCR espécie-específica para o diagnóstico da esporotricose por S. brasiliensis em humanos e gatos a partir de amostras não invasivas (swab). A técnica apresentou concordância superior a 86% em relação ao cultivo micológico, configurando-se como uma alternativa viável para o diagnóstico precoce da esporotricose, especialmente em regiões onde há carência de profissionais especializados em micologia. Manuscrito 5: Foi explorada pela primeira vez a atividade da microalga Nannochloropsis oceanica frente a S. brasiliensis. O extrato hexânico não apresentou atividade inibitória direta em concentrações de até 800 µg/mL, e ensaios de combinação revelaram somente efeitos aditivos e sinérgicos fracos com o itraconazol. Apesar dos resultados iniciais não se mostrarem muito promissores, essa avaliação inaugura uma linha de investigação marinha até então inexplorada, e cujas alterações em métodos de extração, solventes e espécies podem revelar potenciais novas moléculas bioativas frente a esporotricose. Assim, a presente tese contribui de forma inédita para a compreensão integrada da diversidade genética e do perfil de suscetibilidade antifúngica de S. brasiliensis no RS, evidenciando o papel da região como área de expansão e diversidade da doença no Brasil e descrevendo dois clados inéditos do fungo circulantes no estado. Além disso, descreve o primeiro caso de esporotricose felina por S. brunneoviolacea e a primeira ocorrência dessa espécie no país caracteriza manifestações clínicas de hipersensibilidade até então pouco descritas, ampliando o conhecimento sobre a apresentação clínica da esporotricose, valida um método molecular acessível para diagnóstico precoce e abre perspectivas para pesquisas em alternativas terapêuticas a partir da bioprospecção marinha.