SAÚDE BUCAL DAS CRIANÇAS DE 0 A 59 MESES NA ZONA RURAL DE RIO GRANDE, RS
Autor: Adriana Vieira Camerini (Currículo Lattes)
Resumo
Introdução: A cárie na primeira infância é a doença infantil mais prevalente, afetando crianças de todos os continentes, e é distribuída de maneira desigual em diferentes comunidades, com maior nímero de casos nas crianças de famílias com maior vulnerabilidade socioeconômica. As estratégias para reduzir a carga de cárie na infância dependem do reconhecimento da rede de causalidade, que ainda não está totalmente esclarecida. Como as mães são as principais cuidadoras de crianças em idade pré-escolar, os fatores maternos exercem influência na saúde das crianças. Diante disso, o presente estudo teve 2 objetivos: 1. investigar a cárie na primeira infância e a sua relação com sintomas de depressão materna em crianças de 12 a 59 meses; 2. avaliar a utilização regular de serviços odontológicos em crianças de 0 a 59 meses, verificando sua associação com a orientação prévia da mãe sobre saúde bucal dos seus filhos e a frequência escolar das crianças. Metodologia: Estudo transversal como parte do consórcio de pesquisa “Saúde da População Rural Riograndina”, realizado pelos Programas de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande. Foi medida a cárie dentária nas crianças e nas mães através do índice ceo-d e CPOD e obtidas as informações sociodemográficas, comportamentais e relacionadas à saúde bucal e à saúde mental. A coleta de dados foi de abril de 2017 a maio de 2018. Um questionário foi aplicado, em toda a população rural amostrada, e a subpopulação de mães e crianças de 0 a 59 meses foi examinada. Os exames epidemiológicos de saúde bucal, obedecendo os critérios da Organização Mundial de Saúde, foram realizados por uma dentista treinada e calibrada. Os dados foram analisados por meio do pacote estatístico STATA, versão 14.0. Foram realizadas análises: univariada; bivariada e multivariada. Resultados: Participaram do estudo 343 crianças de um total de 360 (95,7%). No estudo que avaliou cárie na infância e sintomas de depressão materna, houve a participação de 236 crianças elegíveis (12 a 59 meses). A prevalência de cárie na primeira infância foi de 37,7% e 21,5% das mães apresentaram sintomas de depressão. A prevalência de cárie na primeira infância foi significativamente maior entre os filhos de mães com sintomas depressivos (52,0%) em comparação com os de mães sem sintomas depressivos (34,6%), (razão de prevalência 1,50; IC95% 1,08-2,10). A análise multivariada mostrou que a probabilidade de cárie na primeira infância era quase 50% maior em crianças cujas mães apresentavam sintomas depressivos (RP = 1,46; IC95%: 1,04-2,05) em comparação àquelas com mães sem sintomas depressivos. No segundo estudo, sobre uso regular de serviços odontológicos, foram avaliadas 264 crianças de 0 a 59 meses. A prevalência de uso regular de serviços odontológicos por crianças foi de 11,4%, (IC95%7,5-15,2). Na análise ajustada, o uso regular de serviços foi associado à criança frequentar creche/escola RP= 2,44 (IC95%1,38;4,34) e à mãe ter recebido orientação de saúde bucal, RP=4,13 (IC95%1,77;9,61), mesmo quando controlado para variáveis socioeconômicas, maternas e da criança. Conclusão: Os resultados do presente estudo demonstraram que a ocorrência de cárie na primeira infância esteve associada aos sintomas maternos de depressão. Esses dados sugerem uma barreira importante à prevenção e à redução da carga de cárie, indicando a necessidade de ampliar o espectro de ações para incluir estratégias que não se concentrem exclusivamente em mudanças de comportamento. Por outro lado, quando as mães recebem informações prévias sobre os cuidados com a saúde bucal da criança, e essas frequentam escolas ou creches, aumenta-se a probabilidade de consultas odontológicas regulares em pré-escolares moradoras de localidades rurais, o que pode ser benéfico para a prevenção de doenças bucais.
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