Tese - Luísa Dias da Mota

PERFIL MOLECULAR DO PEGIVIRUS HUMANO (HPgV-1) EM DUAS POPULAÇÕES DISTINTAS DO EXTREMO SUL DO BRASIL: DOADORES DE SANGUE E INDIVÍDUOS VIVENDO COM HIV-1

Autor: Luísa Dias da Mota (Currículo Lattes)

Resumo

O Pegivirus humano (HPgV-1) está amplamente distribuído na população mundial e até o momento não foi comprovado ter potencial patogênico. Os principais fatores de risco para adquiri-lo são a exposição a sangue e o contato sexual. As transfusões sanguíneas são uma importante forma de transmissão, tendo em vista que a testagem para o HPgV-1 não é obrigatória em bancos de sangue. A sua coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana (HIV-1) parece diminuir a evolução da infecção pelo HIV-1. Entretanto, as características da infecção pelo HPgV-1 ainda não estão totalmente elucidadas, pois recentemente foi sugerido a sua associação ao surgimento de doenças neurológicas e neoplasias hematológicas. Neste sentido, o estudo teve com objetivo geral avaliar perfil molecular do HPgV-1 em duas populações distintas do extremo sul do Brasil: doadores de sangue e indivíduos vivendo com HIV-1. As amostras foram submetidas a extração de RNA, síntese de cDNA, detecção do HPgV-1 por nested-PCR e genotipagem. As análises estatísticas foram realizadas utilizando o software SPSS v. 21. O primeiro estudo avaliou de forma transversal a prevalência e circulação genotípica do RNA-HPgV-1 em 281 doadores de sangue considerados sadios. A prevalência observada foi de 21,7%. A única variável que foi significativamente associada à esta infecção foi o status de relacionamento. Doadores de sangue solteiros ou sem parceiro fixo apresentaram duas vezes mais chances de infecção pelo HPgV-1 (IC 95% 1,12-4,56, p = 0,02) em relação aqueles casados ou com parceiro fixo. Foram encontrados os genótipos 1 (2%) e 2 (98%) com o subtipo 2a (29%) e 2b (69%). O segundo estudo determinou a circulação genotípica do HPgV-1, o tempo mínimo de permanência desta infecção, e a influência deste vírus na evolução da infecção pelo HIV-1 em uma coorte retrospectiva de 110 indivíduos coinfectados com o HIV-1. Foram identificados os genótipos 1 (2,8%), 2 (90,2%) com o subtipo 2a (47,9%) e o subtipo 2b (42,3%) e 3 (7%). O subtipo 2b foi associado a menores taxas de carga viral do HIV-1 (p = 0,03) e maiores taxas de células T CD4+ (p = 0,009) em relação ao subtipo 2a. O tempo mínimo de infecção do HPgV-1 foi em média 5.93 anos (DP±3,54). A presença do HPgV-1 em indivíduos sem TARV, foi associada a maiores taxas de células T CD4+ (p = 0,03), entretanto não houve relação com a carga viral do HIV-1 (p = 0,10). Os diferentes tempos de persistência do HPgV-1 não foram associados a mudanças significativas na carga viral do HIV-1 (p = 0,47) e na contagem de células T CD4+ (p = 0,11). Conclui-se que na ausência de fatores de risco para a transmissão parenteral é provável que a transmissão sexual tenha sido a via de infecção dos doadores de sangue. Determinados genótipos do HPgV-1 parecem atuar no melhor prognóstico da infecção pelo HIV-1. A infecção pelo RNA-HPgV-1 é persistente e sugere-se que influencie na contagem de células T CD4+ em indivíduos sem TARV. Entretanto, mais estudos sobre este agente viral são necessários para esclarecer se a resposta imunológica provocada pela sua presença pode resultar em algum efeito deletério ainda não identificado, potencializando o surgimento de outras doenças.

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