Tese - Marcela Dupont Soares

AVALIAÇÃO DA CAPACIDADE INTELECTUAL DE CRIANÇAS EXPOSTAS A CONTAMINANTES AMBIENTAIS EM ÁREAS DE USINA TERMELÉTRICA A CARVÃO

Autor: Marcela Dupont Soares (Currículo Lattes)

Resumo

Para que a criança possa ter um pleno desenvolvimento no processo de aprendizagem ela precisa ter uma adequada estruturação de sua função cognitiva. Diversos fatores vêm sendo associados ao comprometimento na capacidade intelectual, entre eles destaca-se a exposição a fatores ambientais, como a poluição. Esta pesquisa teve como objetivo avaliar a capacidade intelectual de crianças que estão sob risco de exposição à contaminação ambiental em área de exploração e queima de carvão mineral, oriundos de uma Usina Termelétrica localizada no município de Candiota/RS. A região de estudo foi dividida pelo órgão de gestão ambiental em duas áreas: influência direta- I.D. (Candiota) e influência indireta- I.I. (outros seis municípios da região: Aceguá, Bagé, Herval, Hulha Negra, Pedras Altas e Pinheiro Machado). Participaram do estudo, 778 crianças, matriculadas em escolas da rede pública desses sete municípios, com idade entre 7 anos e 11 anos e 8 meses. A coleta de dados ocorreu entre julho e dezembro de 2013. Foram utilizados dois instrumentos: um questionário semiestruturado para levantamento de questões pré peri e pós-natais que investigou as condições socioeconômicas da família e demográficas maternas; condições de moradia e outros fatores ambientais; história reprodutiva materna; atenção durante a gestação; condições de nascimento; características do escolar; atenção ao escolar durante a vida; crescimento e histórico de morbidades. A Escala das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven foi utilizada para a avaliação da capacidade intelectual do escolar. O desfecho estudado foi a suspeita de comprometimento intelectual, sendo as crianças identificadas com essa condição aquelas com percentil inferior a 49. No que se refere a análise de dados, após a distribuição das frequências das diferentes variáveis foi realizada a análise comparativa entre as áreas I.D. e I.I. por meio do teste qui-quadrado. Para identificação dos fatores associados ao desfecho foram realizadas análises bruta e ajustada utilizando-se a regressão de Poisson com estimativa de variância robusta. Para evitar possíveis fatores de confusão, as variáveis que se apresentaram p ≤ 0,20 foram mantidas no modelo até o final. Em todas as análises, foram considerados significantes os valores em que p<0,05. Foi encontrada uma prevalência de 22,9% de crianças com suspeita de comprometimento da função intelectual, sendo 16,5% na área de I.D. e 23,6% na área de I.I. (p=0,15). A análise comparativa destaca as seguintes diferenças entre as áreas: renda familiar per capita < 1/2 salário mínimo  (p<0,00; I.D.: 43,7% vs e I.I.: 64,0%); classe econômica C2 (p<0,00; I.D.: 12,7% vs e I.I.: 26,1%); tipo de habitação de alvenaria (p<0,00; I.D.: 60,6% vs e I.I.: 78,3%); exposição atual ao tabagismo (p=0,01; I.D.: 70,47% vs e I.I.: 78,3%); tipo de parto cesáreo (p=0,01; I.D.: 51,9% vs e I.I.: 37,9%); pouca participação do pai nos cuidados com a criança (p<0,00; I.D.: 17,7% vs e I.I.: 24,7%). Os fatores de risco associados significativamente ao desfecho em ambas as análises foram: ausência de companheiro (RP=1,18; p=0,04); escolaridade materna < 4 anos de estudo (RP=2,26; p<0,00); ausência de sanitário com descarga (RP= 1,55; p<0,00); baixo peso da criança ao nascer (RP=1,55; p<0,00); não aleitamento materno (RP=1,94; p<0,00); pouca participação do pai nos cuidados com a criança (RP= 1,07; p<0,00); não frequência em creche (RP= 1,29; p<0,00) e condição nutricional inadequada (RP=1,75; p<0,00). A análise mostrou que idade materna ≥ 35 anos (RP=0,79; p<0,00) e necessidade de assistência ventilatória após o nascimento (RP=0,69; p<0,00); apresentaram-se como fatores de proteção. As médias geométricas das concentrações de elementos traço na urina do conjunto de escolares mostraram os seguintes valores: Mn (0,8ug/L), Cu (6,9ug/L), Zn (509,4ug/L), Se (10ug/L) e Pb (4,8ug/g de creatinina). A média ± erro padrão da média, mediana e variação dos percentis encontrados para o conjunto de escolares analisados foi de 65,8±25,6 (mediana =70,0; mín:5 – máx. 99), não sendo encontradas diferenças entre I.D e I.I. Neste estudo não foi encontrada diferença significativa entre as áreas de I.D. e I.I. no que diz respeito a capacidade intelectual da criança. Porém, considerando-se as prevalências de desfecho encontradas, e sabendo-se dos efeitos da exposição da criança a esse tipo de contaminação ambiental, sobretudo no que diz respeito a expressão da capacidade intelectual, julga-se necessário estratégias de monitoramento permanente das condições de saúde dessas crianças.

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