Tese - Cláudio Moss da Silva

"HEPATITE E" E O USO DE ÁLCOOL EM PACIENTES HIV+ NO SUL DO BRASIL

Autor: Cláudio Moss da Silva (Currículo Lattes)

Resumo

As pessoas que vivem com HIV/AIDS (PLWHA) frequentemente compartilham condições clínicas e epidemiológicas que não são rotineiramente investigadas. Tais condições podem ser importantes na evolução da enfermidade. O Vírus da Hepatite E (HEV) tem uma distribuição mundial e um comportamento epidemiológico que depende principalmente da estrutura sanitária existente na região estudada, do genótipo implicado e da condição imunológica do indivíduo. No Brasil, a Hepatite E (HE) tem sido pouco estudada; o genótipo do vírus circulante é o três (HEV3), a sua transmissão tem sido caracterizada como zoonótica e a ocorrência de hepatite é esporádica. Estudos recentes demonstraram que a infecção por esse genótipo pode evoluir à cronicidade em indivíduos com comprometimento imunológico. O uso de álcool, além de comum entre PLWHA, é mais frequente que na população geral e pode determinar desfechos desfavoráveis nesse grupo de indivíduos. O primeiro objetivo deste estudo foi avaliar o HEV; sua prevalência sorológica e molecular em pacientes infectados pelo HIV (HIV+) e em doadores de sangue e estudar os fatores de risco associados à sua ocorrência. O segundo objetivo foi avaliar o uso de álcool entre pacientes HIV+ bem como os fatores de risco para o seu uso abusivo e suas consequências sobre as contagens de células CD4+ e carga viral do HIV. Foi realizado um estudo transversal onde foram avaliados 360 pacientes HIV+ atendidos em um hospital universitário e 281 doadores de sangue de um serviço de hemoterapia, ambos na cidade de Rio Grande, sul do Brasil. Os participantes foram entrevistados e suas amostras de plasma submetidas à pesquisa do HEV por métodos sorológicos e moleculares. O uso de álcool foi avaliado empregando o questionário AUDIT. Os resultados mostraram soroprevalências da imunoglobulina G (IgG) anti-HEV semelhantes para os dois grupos (7,2% entre os HIV+ e 5,7% entre os doadores de sangue). Os fatores associados à sorologia positiva para o HEV no grupo de pacientes HIV+ foram: ter idade acima de 40 anos, possuir companheiro ou parceiro fixo, três ou mais parceiros sexuais no último ano, a ausência de rede de esgoto no domicílio e fazer o uso nocivo de álcool. Para os doadores de sangue o único fator associado foi residir em região rural. A pesquisa molecular do HEV identificou o genoma viral em oito (2,2%) pacientes HIV+, amostras anteriores e posteriores desses pacientes mostraram-se negativas. Um doador de sangue apresentou testes sorológicos e moleculares simultaneamente positivos para o HEV, sugerindo uma infecção aguda. A investigação do caso descartou a transmissão viral ao receptor do sangue transfundido. O uso abusivo de álcool foi observado em 28,6% dos pacientes HIV+ entrevistados e a possível dependência em 5%. Os fatores de risco identificados para o uso abusivo de álcool incluíram o sexo masculino, a cor da pele parda ou negra, o baixo nível de educação e o uso de drogas ilícitas inalatórias e injetáveis. Escores mais elevados no AUDIT se associaram a menores contagens de células CD4+ entretanto, não influenciaram a carga viral do HIV. Conclui-se que a infecção pelo HEV é comum e acomete de forma semelhante pacientes HIV+ e doadores de sangue; no entanto, os fatores associados para cada um desses grupos foram diferentes. Nenhum caso de infecção crônica pelo HEV foi observado. A prevalência do uso abusivo de álcool foi elevada e se associou a fatores socioeconômicos e ao uso de drogas ilícitas. O escore AUDIT afetou negativamente a contagem de células CD4+

TEXTO COMPLETO DA TESE