Tese - Karine Ortiz Sanchotene

Esporotricose felina no município do Rio Grande, RS, Brasil: epidemiologia, etiologia e antifungigrama dos isolados clínicos de Sporothrix brasiliensis

Autor: Karine Ortiz Sanchotene (Currículo Lattes)

Resumo

A esporotricose se caracteriza como a principal micose subcutânea do Brasil, e em alguns estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, tem sofrido alteração epidemiológica, com modificação do seu caráter sapronótico para zoonótico, envolvendo especialmente felinos domésticos na transmissão. Nas últimas décadas, estudos moleculares permitiram comprovar que o felino doméstico infectado é a principal fonte de infecção da espécie Sporothrix brasiliensis (S. brasiliensis) para seres humanos e outros animais. Neste sentido, o estudo teve como objetivo caracterizar a epidemiologia e a etiologia da esporotricose felina no município do Rio Grande e avaliar a suscetibilidade in vitro dos isolados clínicos de S. brasiliensis. Foram incluídos no estudo todos os casos diagnosticados no laboratório de Micologia da FAMED-FURG no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2014. Os dados epidemiológicos foram obtidos por requisição específica, enviada juntamente à amostra clínica dos animais suspeitos da doença. O diagnóstico foi realizado por exames micológicos clássicos e os isolados clínicos foram identificados em nível de espécie por biologia molecular. Os testes de suscetibilidade in vitro foram realizados frente ao itraconazol (ITZ), terbinafina (TRB) e anfotericina B (AMB) de acordo com protocolos do Clinical and Laboratory Standadrs Institute (CLSI), M38A2 para fase filamentosa e M27A3 para fase leveduriforme. Durante o período do estudo, 230 amostras clínicas de felinos com suspeita de esporotricose foram encaminhadas, das quais 129 (56,1%) foram positivas, confirmando o diagnóstico da doença. Esses casos foram procedentes de 30 bairros distintos do município do Rio Grande, com destaque para o balneário Cassino. Ao longo do estudo, houve um incremento progressivo em relação ao número de amostras recebidas e, consequentemente, ao número de casos confirmados da doença, passando de 0,75 novos casos por mês em 2010 para 3,33 casos/mês em 2014. A maioria dos casos ocorreu em felinos machos, com livre acesso à rua e com lesões há mais de 30 dias da confirmação diagnóstica, o que favorece a disseminação da doença. Dos 129 isolados 35 foram identificados, e todos eles pertenciam à espécie S. brasiliensis. A TRB foi o antifúngico com melhor atividade in vitro frente a estes 35 isolados de S. brasiliensis testados, seguido do ITZ. Os valores de Concentração Inibitória Mínima (CIM) foram maiores para a fase filamentosa que para leveduriforme, e, valores altos de CIM (≥4µg/ml) determinando possível falha terapêutica para o ITZ e AMB, foram encontrados em torno de 20% e de 6 a 14% para isolados na fase filamentosa e leveduriforme, respectivamente. Embora a CIM dos antifúngicos tenha apresentado alta variabilidade, em cerca de 20% dos isolados a resistência in vitro a pelo menos um dos fármacos testados foi detectada. O elevado número de casos da esporotricose em felinos, associado às características que contribuem para disseminação da mesma por estes animais demonstradas neste estudo, evidencia a necessidade de implementação de medidas de controle e prevenção da doença no município do Rio Grande, a qual pode assumir uma proporção alarmante como problema de saúde pública regional tendo em vista seu caráter zoonótico.

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